O diploma de jornalista em um papo com um amigo
Minha tendência é ser favorável à decisão do STF quanto a não
obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. E isso por um
motivo bastante simples: o diploma não garante absolutamente um bom
jornalista. Mas nada melhor que debater com um querido amigo e professor
de jornalismo para melhorar a conversa. Fala então, o escritor e
professor Paulo Ribeiro, em seu blog Vitrola dos Ausentes:
Peixes fritos e diploma
“A decisão do Superior Tribunal Federal (STF), que extinguiu a
obrigatoriedade do diploma para o exercício do Jornalismo (e misturou
cozinha com redação, peixes fritos com ética) é de última instância e
sobrou para nós os protestos. E é preciso que eles sejam consistentes.
Escritor, como os românticos de outros tempos, poderia evocar aqui o
direito de “ser jornalista†por gostar do hábito da escrita.
Bobagem. Hoje, a sociedade, a clientela quer alguém habilitado, com
formação específica, técnica e eticamente preparado para o exercício da
atividade jornalística.
Talvez seja válido também recordar aos ministros que liberdade de
expressão não é o mesmo que liberdade de informação, que é o que
distingue a prática do Jornalismo do direito que a Constituição assegura
a todo o cidadão.
Mas, por outro ângulo, até que é em boa hora a decisão do Tribunal que
gerou esta onda de protestos. A profissão de jornalista, até aqui, era
regulada por um decreto-lei do tempo da ditadura, normatizada por um ato
da Junta Militar. Era uma forma de “cassar†jornalistas sem canudo
que se manifestassem contra o regime instalado.
Mas, os tempos mudaram. As formas de comunicação evoluíram, as
ferramentas do jornalismo se tornaram tão específicas, que a
obrigatoriedade de uma formação universitária é uma realidade imposta
pelo mercado. E não só: o compromisso social do jornalismo, as balizas
éticas da profissão, a indispensável formação humanística, inerente à
atividade, só se adquire mesmo na Universidade.
Portanto, somado aos nossos protestos de agora, o que se precisa é um
Projeto de Lei no Congresso Nacional, que regulamente e normatize a
profissão dos Jornalistas, bem como a criação de órgãos que os
fiscalize. É o momento, quem sabe, de se encaminhar a criação de um
Conselho de Imprensa, instituição que serviria para acompanhar os atos
dos profissionais diplomados no exercício de uma profissão que lida com
questão tão delicada como a Informação.
Como se vê, “liberar geral†o jornalismo é uma situação intrincada,
perigosa, pois uma notícia, uma opinião pode ser usada para favorecer
grupos econômicos, políticos, corporativos, e fugir da sua função
principal que é o compromisso com a verdade e a responsabilidade social.
A reconquista de nosso diploma começa agora, com a nossa voz no
Congresso, em Brasília.”
E agora vou eu, destacando trechos e batendo um papo com o Paulo:
“Mas, os tempos mudaram. As formas de comunicação evoluíram, as
ferramentas do jornalismo se tornaram tão específicas, que a
obrigatoriedade de uma formação universitária é uma realidade imposta
pelo mercado.”
Se a realidade é imposta pelo mercado, em última análise a decisão do
STF não interfere em nada. Afinal, o que o tribunal decidiu foi pela não
obrigatoriedade do diploma, e não pela extinção dos cursos de
jornalismo. Se o mercado é o regulador das necessidades jornalísticas,
continuará exercendo livremente seu atributo, porque nada impede que um
dono de empresa estabeleça como critério alguém ser formado na área ou
não. Na minha opinião, a universidade deveria ir muitíssimo além do
mercado, mas se estamos admitindo a primasia deste sobre aquela, diploma
tornou-se verdadeiramente apenas um fator de concorrência: quem o tem,
mesmo que formado em uma universidade de fundo de quintal, trabalha;
quem não tem, mesmo que com conhecimentos importantes (a chamada esfera
humanística), não trabalha.
“E não só: o compromisso social do jornalismo, as balizas
éticas da profissão, a indispensável formação humanística, inerente à
atividade, só se adquire mesmo na Universidade.”
Vejamos: estou tentando lembrar quais disciplinas humanísticas eu tive
no meu curso de jornalismo… Hammm, acho que não enchem uma mão. Talvez
nem meia mão. De teoria da comunicação, tive uma disciplina (!!!), para
aprendermos as teorias diversas e, pasmem, semiótica. Semiótica durou
dois meses (estamos falando de algo denso como signos, referentes, etc.,
teorias simbólicas profundas sobre o sentido da comunicação entre os
humanos). História da comunicação, pasmem novamente, não tive nenhuma
disciplina (!!!!!!!!). Fiquemos em um âmbito mais restrito, não história
da comunicação, mas apenas história da imprensa no Brasil: nada,
absolutamente nada. A relação entre a comunicação e a sociedade recebeu
apenas uma disciplina no curso: sociologia da comunicação, a qual foi
dada por uma socióloga e que se traduziu em uma das melhores do curso
(lemos textos analíticos significativos, que envolvem relações
políticas, mecanismos de manipulação da mídia e etc). O que mais?
História? Nada. Antropologia? Uma disciplina, bastante genérica e que se
confundia com Cultura Brasileira. Filosofia? Uma disciplina
introdutória, da qual todos os alunos fugiam porque o professor
visivlmente não se interessava em dar filosofia a pessoas que só queriam
saber escrever lead. Pronto, encerramos o capítulo humanístico do curso.
Em compensação: umas sete disciplinas de TV para assistirmos técnicos de
estúdio mexerem nas máquinas, com algum material que a gente produzia.
Sete disciplinas são três anos e meio!!! Quatro ou cinco disciplinas de
rádio, sendo que poderiam tranqüilamente serem condensadas em duas. E
umas quatro ou cinco de jornalismo impresso, sendo que em apenas uma
tivemos que ler textos relevantes tanto jornalísticamente como
literariamente (sim Paulo, estou falando da redação II). Quanto às
balizas éticas, de fato a universidade pode dar algumas ferramentas,
como um melhor conhecimento da legislação; entretanto, conhecer a
legislação não muda o caráter de ninguém, caso contrário não teríamos
nunca advogados corruptos. De qualquer forma, o curso que fiz também
oferece apenas uma disciplina de ética. Na disciplina de midiologia
comparada, que poderia ser uma extensão da de ética, analisando-se
manipulações, truques de edição, angulações e etc, o que se faz no curso
é analisar levemente durações de entrevistas, número de anúncios em
diferentes veículos, coisas que não passam de números e que, por ficarem
apenas neles, possuem a profundidade de uma colher de chá.
Então, Paulo, concordo contigo que o momento talvez seja bom, porque é
necessária uma reflexão profunda sobre o que se tem nos cursos de
jornalismo. É preciso que a universidade vá além do mercado, e não corra
atrás dele. Caso contrário, o diploma é mero instrumento de reserva de
mercado. Precisamos que os cursos sejam necessários, acima de tudo.
Precisamos que os cursos formem bons jornalistas, que se distingam de
fato dos que não passaram pelos trâmites acadêmicos. Precisamos
reformular os currículos, adequando-os ao princípio da universidade
(conhecimento universal, formação do ser humano) e não ao que a RBS
precisa. Porque ninguém foi lá dizer ao Sirotski quem ele deve ou não
contratar (aliás, as empresas contratam quem querem, independente de
diploma ou não), de forma que a não obrigatoriedade não muda nada, a não
ser o fato positivo que, talvez, alguém muito capaz possa agora exercer
a profissão no lugar do carinha que só sabe escrever lead.